Crise capitalista volta a se agravar, mas o Brasil pode …

Por Adalberto Monteiro* (02/11/11)

Editorial da revista Princípios, edição 115, outubro-novembro 2011

Em outubro de 2008, foi a pique o Lehman Brothers, grande banco de investimentos dos EUA. Este fato simbolizou o início da primeira fase aguda da grande crise do capitalismo que teve como estopim o estouro da bolha imobiliária estadunidense, ocorrida em 2007.
Como se sabe, houve uma onda de quebradeiras (bancos, seguradoras, grandes empresas produtivas etc.) nos EUA e na Europa, cujo auge foi 2009, quando a economia mundial teve uma queda de 2,1%. Os países da chamada periferia do capitalismo, notadamente China, Índia, Rússia, Brasil e outros, apesar de atingidos, enfrentaram com êxito os efeitos deste abalo sísmico. A causa desse terremoto, ainda em movimento, tem como elemento desencadeador, a “ditadura” do mercado, do capital especulativo, sobre as dinâmicas das economias e das finanças das nações e dos Estados.
Em 2010, houve uma tíbia recuperação da atividade econômica. Foi o bastante para os ideólogos neoliberais apregoarem que já soprava a aragem da bonança.
Mas, o relatório semestral do Fundo Monetário Internacional (FMI), de setembro último, tem um título que por si só atesta o quanto eram embuste e miragem aquelas idílicas previsões: Reduzindo o crescimento, Aumentando os riscos (o grifo é nosso). Para o FMI, em 2011, o crescimento global não passará de 4%. Os países do chamado “primeiro mundo”, as grandes potências capitalistas, irão marcar passo na estagnação. Os EUA e um coletivo nominado de economias avançadas terão um desempenho medíocre, com um crescimento raquítico de 1,5% e 1,6%, respectivamente. Já os emergentes devem crescer 6,4%, segundo ainda o FMI. A China socialista, embora haja dúvidas e especulações sobre seu fôlego, continuará, neste ano, sendo o pulmão da economia mundial, com 9,5% de PIB positivo. Para o Brasil, se estima um aumento do PIB de 3,8%, embora as previsões internas já acusem 3,5% ou até menos. Tudo somado demonstra que a crise teve uma recaída e que ela não tem data para determinar.
O neoliberalismo, apesar do fracasso, recrudesce no centro capitalista. As promessas de alguma regulamentação do mercado financeiro até aqui não passaram de palavras. Até agosto último, os tesouros e bancos centrais de todo o mundo já gastaram mais de 12,4 trilhões de dólares para socorrer bancos e outras instituições financeiras. Nestes três últimos meses do ano, a Europa deve injetar somas fabulosas para salvar bancos combalidos.
Como é da natureza do capitalismo, o ônus da crise é lançado sobre os ombros dos trabalhadores e se eleva o saque sobre os demais países. Segundo acusa a Organização Mundial do Trabalho (OIT), há 200 milhões de desempregados no conjunto das nações e, desde 2008, 20 milhões de postos de trabalho foram cortados. A penúria e o sofrimento impostos ao povo são imensuráveis.
Contra isso, em várias regiões do globo o povo se levanta. Exemplos disso são os movimentos “Ocupe Wall Street” e o dos “Indignados”. O primeiro se espalhou por muitas cidades dos Estados Unidos e, o segundo, na Europa. Embora ecléticos, as vozes se unem em gritos de protesto contra o capitalismo e as mazelas de sua crise. Já na América Latina, se mantém e até se amplia o leque de países governados por forças democráticas.
Acelera-se a decadência relativa do imperialismo estadunidense e se fortalecem outros polos de poder, com destaque para o crescente papel geopolítico da China socialista. Isso encerra riscos, ameaças, porque nenhuma potência cede sua hegemonia de forma pacífica, sobretudo, quando um dos principais trunfos que lhe resta é seu poderio bélico.
De qualquer modo, neste quadro complexo e instável, quando o conservadorismo se robustece para tentar conter o declínio da potência hegemônica, os dogmas neoliberais são uma vez mais desmoralizados e o povo se levanta em defesa dos seus direitos, aparecem neste cenário contraditório janelas de oportunidades para avanços democráticos e progressistas.
O Brasil vai atravessar um oceano tempestuoso, mas tem plenas condições para abrir uma destas “janelas”. Pode não apenas sustentar o crescimento de sua economia, mas avançar seu projeto nacional de desenvolvimento. A presidenta Dilma Rousseff demonstra determinação em defender a economia nacional e os direitos dos trabalhadores. Sua anunciada decisão de promover uma contínua redução dos juros indica um rumo certo para o país singrar as águas revoltas.
Adalberto Monteiro é editor da Princípios

Princípios 115 aborda a crise mundial do capitalismo:

http://grabois.org.br/portal/noticia.php?id_sessao=7&id_noticia=7143